Girl Gang: Cantando meu próprio destino

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Junto com alguns outros fatores que me fizeram questionar o mundo de interior em que eu vivia, tive uma crise de identidade muito forte (assim como muitas adolescentes). Acabei fugindo de muita coisa. E uma das únicas coisas que me faziam reencontrar algum caminho era a música.

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19 de março de 2018

Girl Gang: Cantando meu próprio destino

19 de março de 2018 - 13:36 - atualizado em 19 de março de 2018 - 13:39

Ser mulher, querendo ou não, é lidar com pressão. A pressão, desde que você nasce, de ser quem esperam que você seja, de gostar do que esperam que você goste, de se tornar quem esperam que você se torne. Mas isso tudo, sem nem mesmo te conhecer, porque nem você mesma se conhece. Todos à sua volta tem uma preocupação enorme em te colocar dentro de um quadrado que lhe foi apresentado assim que você veio ao mundo, e essa preocupação, muitas vezes, acaba sendo maior do que qualquer outra que, na nossa mente de criança, seja mais relevante.

Minha infância (não muito distante, dentro dos meus quase 20 anos) foi tranquila. Mesmo assim, por ser menina, a pressão sempre esteve presente. Porque ser menina, até então, exigia usar rosa, pintar as unhas, brincar de boneca, e ser comportada (“senta igual menina!”). Na verdade, eu sempre gostei de “coisas de menina”, como a tal da boneca e as maquiagens. Mas eu nunca entendi por que eu tinha que sentar direito, por que eu tinha que tomar cuidado com minhas roupas, por que eu tinha que ser doce e falar delicadamente.

Isso tudo, a partir dos meus 12 anos, junto com alguns outros fatores que me fizeram questionar o mundo de interior em que eu vivia, me levou a ter uma crise de identidade muito forte (assim como muitas adolescentes). Eu queria fugir daquilo, daquela pressão, daquele padrão que eu nem sabia como definir. Eu só queria ser diferente, e fazer coisas diferentes, além da minha realidade. Acabei fugindo de muita coisa. E uma das únicas coisas que me faziam reencontrar algum caminho era a música.

Comecei a cantar aos 11 anos, na igreja. Acabei tendo isso como um hobby de fim de semana, ou algo do tipo, mas sempre foi a minha primeira paixão, dentro de todas as outras que eu tive/tenho. Cantando eu conseguia concentrar em melodia tudo o que eu tinha de bom ou de ruim guardado, e, para minha surpresa inicial, ficava bom. Me aprofundei, fiz coral, aula de teoria musical, aula de canto, e até arrisquei o violão, mas ficava muito na obrigação de saber tocar algum instrumento. E, como tudo que vira rotina e obrigação me perturba, acabei deixando de lado.

Logo que me mudei para Curitiba, aos 16, percebi que as pessoas daqui faziam as mesmas perguntas e indagações que eu fazia, quando nem sabia o que era, e isso me animou muito. E quando eu entrei na faculdade, foi ainda mais forte a minha relação tanto com o feminismo, quanto comigo mesma, pois comecei a entender muito mais sobre meus desejos e frustrações. E nisso, nessa viagem toda, eu entrei no Grupo de MPB da UFPR, no começo do ano passado. Eu nunca imaginei que algum projeto fosse abrir tanto minha visão para outras realidades, e me colocar numa situação de aprendizado diário, não apenas na música, mas também para os significados e atribuições que fazemos a ela.

Agora, depois de um ano desse Grupo e entrando para o Coro Cênico de Curitiba, do qual eu participei e continuo participando da idealização, eu sei: a música não é apenas notas juntas que formam uma melodia. Não é apenas uma letra cantada. Não é apenas uma partitura. Cada vez que lemos uma música para ensaiar, nós paramos para entender os significados delas, aplicados na nossa própria realidade. Eu evoluo como pessoa, como mulher, a cada dia de ensaio, junto com meus e minhas colegas que eu amo e admiro tanto. Eu tenho autonomia para colocar minha voz (falada e cantada), minhas opiniões, minhas ideias e ideais dentro de um espetáculo, dentro de algo tão grande e tão bonito. Tem dedo meu! E sentir isso é maravilhoso, inspirador, e, principalmente, libertador.

Nada nunca vai aliviar a pressão de ser mulher. Enquanto o mundo for o que é, essa pressão é infinita e inconfundível. Mas quanto mais você entende e entra nessa luta de ser mulher, e aplica isso à sua rotina, mais você se entende. Mais você entende seu papel no mundo, que não é de lavar louça ou de brincar de boneca. E sim, de pegar seu próprio destino e fazer por si: mostrar ao mundo que você, mulher, pode, e pode muito.

Verônica Melhem

19 de março de 2018 - 13:36 - atualizado em 19 de março de 2018 - 13:39

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