Girl Gang:Quem é você quando é a única profissional negra na agência de publicidade?

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Muito diferente do que aconteceu com os meus amigos brancos que “crisaram” com questões relacionadas ao o que iam fazer com o término da faculdade, a minha “crise” se resumia em: “Sou mulher e a única (ou uma das poucas) negras que frequentam os espaços que estou presente! Como devo reagir? O que devo fazer?”.

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20 de março de 2018

Girl Gang:Quem é você quando é a única profissional negra na agência de publicidade?

20 de março de 2018 - 11:57 - atualizado em 20 de março de 2018 - 13:18

Ao finalizar minha graduação em Publicidade e Propaganda, novas representações de um mesmo contexto começaram a pairar sobre minha cabeça. E, muito diferente do que aconteceu com os meus amigos brancos que “crisaram” com questões relacionadas ao o que iam fazer com o término da faculdade, a minha “crise” se resumia em: “Sou mulher e a única (ou uma das poucas) negras que frequentam os espaços que estou presente! Como devo reagir? O que devo fazer?”.

Apesar de ter passado uma vida toda sem compreender culturalmente e socialmente a história dos meus ancestrais, que é e foi saqueada de todos os livros de História e Geografia que circulam pelas escolas públicas do país e não ser representada pela TV e estritamente pelo mercado que trabalho atualmente: a publicidade, meu processo de reconhecimento como mulher e negra só iniciou com a minha chegada no Ensino Superior (e, outra vez, não foram os professores que me ajudaram nisso). Cursando 4 anos em uma instituição elitista e predominantemente branca em Curitiba, a prova de que ser preto em país de enaltecimento excessivo do povo branco é f@#$%, só aconteceu no dia da minha colação de grau. Dois fatos me levaram a enxergar isso de maneira bem prática e me fizeram notar que racismo nunca foi teoria. Vamos aos fatos:

Fato 01: Neste dia, eu tive que fazer um procedimento de escova e babyliss para “alisar” meus cabelos, fato que me fez dispensar os 21 anos (equivalentes a toda minha existência até o momento) livres de chapinhas e químicas. Isso tudo só aconteceu devido ao uso obrigatório do capelo (Sim, aquele “inofensivo” chapéu de formatura) na cerimônia de colação de grau. O capelo, foi a maior prova que eu tive de que a universidade não é e não foi pensada para que os negros ocupassem. O meu black power não cabia no capelo, assim como o racismo institucional dizia, em voz bem baixinha, que eu não cabia naquele espaço acadêmico e tão pouco minha família cabia naquela plateia.

Fato 02: O outro fato, partiu da observação de um amigo branco, se você ainda não se convenceu da problemática que estou abordando, o amigo era loiro e de olhos claros. No momento em que os alunos ocupavam seus lugares a ansiedade do meu amigo para me encontrar foi aumentando... Logo, ele fez uma nota mental: “Parece todo mundo igual com essa roupa e chapéu...” Até que ao verificar a cadeira e a fileira que eu estava ele refletiu: “A Edi é a mais fácil de encontrar... é uma das poucas negras retintas a se formar”.

NO MERCADO DE TRABALHO:

Se você chegou até aqui já deve ter percebido que os vestígios de um mau passado ecoam até hoje. Quando falamos de mercado de trabalho o abismo é ainda maior, segundo estudo do Instituto Ethos 0,6% das mulheres negras ocupam cargos executivos nas maiores empresas do Brasil, ou seja, continuamos sendo sub representadas. Para provar que o racismo e machismo existem sim e estão diretamente refletidos no seu ambiente de trabalho ou nos espaços que você frequenta, sugiro que você analise e note quem são as mulheres e os negros ao seu redor e quais cargos estão ocupando ou o que estão fazendo. Esse é um indicativo de que todo o contexto que você criou hoje sobre as mulheres e a população negra está pra lá de equivocado. Pense MUITO bem antes de reproduzir questões machistas e racistas por aí. (Se quiser, posso auxiliar com uma série de boas práticas ou debatemos os temas por inbox).

Dificilmente, eu conseguiria falar sobre o que é ser mulher e negra no mercado de trabalho sem abordar todas essas questões. É muito difícil pra mim, ter que reproduzir na minha direção de arte a família feliz e branca do comercial de margarina ou entregar os principais trabalhos que seriam de protagonismo feminino para os homens. Por isso, todos os dias o meu maior desafio como profissional, é criar soluções disruptivas para o padrão existente, seja da relação de como a mulher é retratada quanto do povo negro. Minha meta no trabalho é contribuir para inverter as estatísticas e evidenciar as mulheres e os negros, seja substituindo a arte com foto da família feliz branca pela família negra tão feliz quanto a branca ou cobrando que no casting do cliente faltam mulheres e negros na frente das câmeras ou em categorias importantes. Os privilégios que tive acesso me fizeram chegar até aqui e ver que o mercado publicitário permite transformar criatividade em luta. Definitivamente, se eu não matar o job para que as mulheres e os negros sejam devidamente representados, o job me mata nas ruas! (E aqui eu estou falando de feminicídio e genocídio negro, mas fica como pauta para o inbox ou outro texto).


Edilaine Alves

20 de março de 2018 - 11:57 - atualizado em 20 de março de 2018 - 13:18

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