Girl Gang: Ser mulher e gostar de futebol

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Estranho que apesar de ser só uma "menininha" quanto mais me faziam perguntas desmotivadoras, mais eu estava motivada a conseguir mostrar o quão capaz eu era de ser muito boa em um esporte dominado pelo universo masculino [...] Não basta ser mulher, temos que passar por cima de várias barreiras, mas talvez, justamente por sermos mulher é que conseguimos vencer todas elas.

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27 de março de 2018

Girl Gang: Ser mulher e gostar de futebol

27 de março de 2018 - 14:28 - atualizado em 27 de março de 2018 - 14:42

Em meio a tantas coisas que vão acontecendo, nós vamos nos encontrando. Quando você é uma criança, uma menina com alguns gostos peculiares, percebe que o seu jeito diferente de ser, muda completamente a sua vida. Eu tenho uma paixão: o futebol!

Você sempre ouve sua mãe dizendo que tem que ser forte, que tem que ser você mesma e então acredita. E com toda aquela força que não tem explicação, você simplesmente esquece das opiniões das pessoas e aceita seu gosto "diferente". Difícil acostumar com perguntas do tipo: Você é uma menina e tão nova e joga futebol? Sim. Você não tem medo de jogar com os meninos? Não, até porque quando eu era pequena não tinham times femininos (ou incentivo algum ainda). Mas você joga com eles e não atrapalha? Você sabe o que é um escanteio?  E coisas assim são muito comuns de ouvir. Engraçado que os meninos com os quais eu jogava futebol, não tinham problema com isso, eles nem estranhavam. O pior mesmo eram os pais deles que achavam uma afronta eu praticar o esporte, ou ter espaço entre eles.

Quando você deixa de se importar com as opiniões, parece que as pessoas esquecem tudo o que já te disseram. Quando você mostra que alguns limites estão lá para serem ultrapassados e você consegue, as pessoas deixam de questionar tanto. Estranho que apesar de ser só uma "menininha" quanto mais me faziam perguntas desmotivadoras, mais eu estava motivada a conseguir mostrar o quão capaz eu era de ser muito boa em um esporte dominado pelo universo masculino.

Mas, conforme você cresce um pouco mais, suas amigas da escola gostam de ir ao cinema, conversar, pintar as unhas, ou até mesmo de vôlei. Mas você gosta de futebol, assiste futebol, coleciona figurinhas de times de futebol, faz álbuns e conversa com os meninos. Depois seu pai junto com seu irmão, te levam para assistir um jogo do seu time, no estádio. E então eu podia passar horas e horas falando de futebol e estar dentro do estádio, que não cansava e amava, cada vez mais.

Comecei, então,  a perceber que em algumas ocasiões estava me destacando, e ao invés de me notarem como a "diferentona" porque gosto de futebol, eu era, pra mim e para algumas poucas pessoas, incrível!

Comecei a levar a sério o esporte, treinar todos os dias, participar de torneios e campeonatos da escola e regionais. E a paixão só aumentou. Toda vez que eu entrava na quadra era ainda mais forte a emoção de "ser importante" ali, naquele momento.

E então surgiu mais um empecilho, como ser mulher e querer ter uniforme do seu time? Difícil, pois não temos muitas opções, enquanto homens tem 30 opções diferentes, nós, quando achamos, é apenas uma. E em várias ocasiões, serão modelos especiais femininos, adivinha de qual cor? Rosa, pois é! Mas e se o uniforme do seu time for verde, não faz nenhum sentido eu querer que a minha seja rosa, principalmente quando estou em busca da camisa oficial, que é ainda mais rara para nós.

Como se já não bastasse ter que conviver com perguntas indiscretas, por ter os gostos peculiares, eu ainda consegui "piorar", pois é, para algumas pessoas o que mais eu poderia gostar? Basquete? Rugby? Não, que tal futebol americano? Isso! E além de descobrir mais uma paixão de futebol, ainda resolvi treinar quase todos os dias, no Curitiba Silverhawks. Fico com vários e vários roxos e hematomas, mas chego em casa mais feliz do que nunca. E lá vem os comentários e questionamentos de novo. Eu não acredito que você joga futebol americano. "Se os caras se machucam muito, imagina vocês mulheres tão frágeis. Vocês não tem força o suficiente".

Não basta ser mulher, temos que passar por cima de várias barreiras, mas talvez, justamente por sermos mulher é que conseguimos vencer todas elas.

Com o tempo as pessoas ao meu redor percebiam que eu não poderia ser outra pessoa, se não a Caroline que gosta de lasanha, assisti seriados, conversa com as amigas, fala de esmaltes, é apaixonada por crianças, mas acima de tudo: é jogadora de futebol e futebol americano. E em um universo dominado por homens, lá estou eu: uma mulher.

27 de março de 2018 - 14:28 - atualizado em 27 de março de 2018 - 14:42

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