Girl Gang: Ser mulher é político. Dar voz a quem precisa é necessário

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Quando eu entrei na faculdade de jornalismo já tinha certeza que meu projeto de TCC teria algo relacionado à violência sexual, que é, para mim e muitas outras mulheres, um tema caríssimo. Coletei muitas entrevistas e tenho orgulho de ter sido porta-voz dessas mulheres que finalmente puderam ser ouvidas. 

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16 de março de 2018

Girl Gang: Ser mulher é político. Dar voz a quem precisa é necessário

16 de março de 2018 - 17:03 - atualizado em 16 de março de 2018 - 17:26

Desde criança eu tinha o sonho de ser jornalista e, em 2013, esse sonho começou a se tornar realidade. Mas, antes disso acontecer, vivi o pesadelo: pessoas muito próximas a mim foram vítimas de estupro. Assim, quando eu entrei na faculdade e sabia que teria que fazer um projeto de TCC, já tinha a certeza de que faria algo relacionado à violência sexual, que é, para mim e muitas outras mulheres, um tema caríssimo.

Em 2016, comecei a executar esse projeto. Mas, eu ainda não sabia exatamente o que eu faria. É delicado. Então, nas pesquisas que fiz sobre o tema do estupro, descobri que as principais vítimas, no Brasil e no mundo, são as crianças do sexo feminino. No Brasil, 7 em cada 10 vítimas do crime hediondo são meninas com idade igual ou inferior a 13 anos. E foi a partir disso que optei por fazer um livro-reportagem que desse voz a essas pessoas. 

O LIVRO

Por questões de ética e bom senso, eu não poderia entrevistar crianças. Existe algo que se chama revitimização, que não é nada mais do que violentar, mais uma vez, uma pessoa que já foi violentada. É isso que acontece quando um jornalista, ou qualquer outra pessoa, faz uma criança ou adolescente vítima de estupro reviver o crime para contar o seu relato. Dessa forma, entrevistei mulheres adultas para constituir o livro.

Homens também são vítimas de estupro. Mas, nesse projeto, optei por dar voz às principais vítimas, que são do sexo feminino (90% dos casos) e crianças (70% dos casos). O tema é urgente. O objetivo, sobretudo, foi o de explicar como a violência sexual na infância provoca consequências psicológicas a curto e a longo prazo. Traumas que, por mais que os anos passem, também são levados para a vida adulta.

O CLUBE SECRETO DA DOR

O resultado foi O Clube Secreto da Dor: a história de mulheres que foram vítimas de estupro na infância. Algumas pessoas me perguntam o porquê do título. Deixo com vocês um trecho do relato da Juliana:

“Eu consigo, depois de uma certa convivência, identificar o abuso em outra pessoa, do mesmo jeito que já identificaram o abuso em mim várias vezes. Somos um clubinho secreto da dor. Somos aqueles que por muito tempo não gritaram. Somos fruto do nosso passado. Somos sobreviventes.”

Juliana foi uma das primeiras mulheres que toparam falar comigo e contaram suas histórias. E o que ela fala nesse trecho diz muita coisa. Hoje, a maioria das vítimas não denuncia o estupro, apenas 10% delas relata o crime às autoridades. Ou seja, são pessoas que vivem em um completo silêncio. Depois de Juliana, conversei com mais de 90 mulheres que também foram vítimas do mesmo crime quando ainda eram crianças.

Não foi nada fácil coletar todas essas entrevistas, mas eu não estou aqui para falar disso. O resultado foi muito compensador. Tenho orgulho de ter sido porta-voz dessas mulheres que finalmente puderam ser ouvidas. Quando apresentei o livro-reportagem, pela primeira vez, ao público, foi muito emocionante. Era a minha banca de TCC. Todas as mulheres que tiveram suas histórias publicadas no livro estavam na plateia. 

[BOOK TRAILER O CLUBE SECRETO]

Mas, embora eu tenha conversado com 92 mulheres, apenas 4 delas tiveram suas histórias publicadas em O Clube Secreto da Dor. Isso devido a minha limitação de tempo e, até mesmo, limitações financeiras. Fazer um livro é caro. As entrevistas demoravam muitas horas. Por isso, além do livro, em 2016 também criei um blog para publicar relatos de vítimas de estupro na infância: o Vamos Fazer Um Escândalo.

O BLOG “VAMOS FAZER UM ESCÂNDALO”

Lembro que em março de 2016 eu já tinha mergulhado de cabeça nessa temática do estupro na infância. E, em maio, ocorreu aquele caso do estupro coletivo de uma adolescente de 15 anos que se tornou comoção nacional. Nessa época, eu já tinha conversado com muitas mulheres e sabia que, no livro-reportagem, nem todas as histórias seriam publicadas.

E foi assim que resolvi criar um blog para publicar os relatos de vítimas que tinham entrado em contato comigo. Na primeira publicação, mais de 20 mil visualizações em um dia, sem qualquer estratégia de divulgação. Na segunda, mais de 30 mil… E assim foi. A cada relato publicado, outras dezenas de mulheres entravam em contato comigo. Depois de 5 meses de blog no ar, o número de visualizações já ultrapassava 1 milhão.

Todos os dias, ao menos uma mulher entrava em contato comigo para contar sua história. E ainda hoje recebo relatos, seja via e-mail, inbox do Facebook ou WhatsApp. No fim das contas, parece que o projeto nunca acabou. E não acabou mesmo. Algumas pessoas me perguntam porque esse livro ainda não foi publicado e eu sempre respondo a mesma coisa: porque ele ainda não acabou.

*Ágatha Santos é jornalista e trabalha como Analista de Planejamento de Blog na Agência 110. Em 2017, o blog VAMOS FAZER UM ESCÂNDALO foi o vencedor do Prêmio Sangue Novo de Jornalismo, promovido pelo Sindicato de Jornalistas do Paraná (SINDIJOR), na categoria de Melhor Blog de Notícias do Ano. E ainda em 2017, o livro O CLUBE SECRETO DA DOR foi um dos 5 finalistas do EXPOCOM, prêmio destinado aos melhores trabalhos experimentais produzidos exclusivamente por estudantes no campo da Comunicação.


16 de março de 2018 - 17:03 - atualizado em 16 de março de 2018 - 17:26

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